11/18/13
Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamerite
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
Neste ano de 1962
encostado a urna esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não
chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos
Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto do aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1 962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria
daniel filipe
Quem não suspeita do que
existe. Porque apanhei, o que não é costume,
um troleicarro. Um curto sprint. Mas
não desligo logo. Não logo
da satisfação. Contudo
apesar de arquejante ainda
se ouve, façam o favor de sair.
Saiam todos. Disse
o microfone, e os passageiros
do trólei saíram. Eram
nove. Nove ou dez. Então
viram que se partiu,
de facto, o cabo. E viu-se
que de facto sim. Depois todos
ponderavam no que seria
o ideal. O que vão
fazer nesta enrascada.
Também eu fiz o mesmo. A mim
chateia-me mais. Outros serão
mais tolerantes. A mesma
matéria. A mesma e diferente.
endre kukorelly
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