8/26/13
8/24/13
waiting for bob
Deixei a vida
correr, um velho cargueiro com trinta anos
agarrando-se
obstinadamente ao meu nome e endereço.
Limparam-me
de todas as minhas associações afectivas.
Aterrada e
nua sobre a maca acolchoada de plástico
[verde
vi o meu
serviço de chá, as minhas cómodas de roupa
[branca, os meus livros
afundarem-se
até os perder de vista, e a água cobriu-me
[a cabeça.
Sou uma
freira agora, nunca fui tão pura.
Não queria
flores, apenas queria
estar
prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
[toda vazia.
Como me sinto
livre sem que ninguém faça ideia da
[libertação...
A paz é tão
intensa que nos entorpece
e nada exige
em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
[bugigangas.
Aquilo a que
finalmente os mortos se agarram; imagino-os
introduzindo-as
na boca como se fossem hóstias.
Mais do que
tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através
do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente,
por entre as suas faixas brancas, como um
[bebé
medonho.
A minha
ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis:
parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me
com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de
vermelhos pesos de chumbo em volta do
[meu corpo.
Nunca alguém
me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas
voltam-se para mim, assim como a janela
donde, uma
vez por dia, a luz se espraia e esvai
[lentamente,
e vejo-me,
estendida, ridícula, uma sombra de papel
[recortado
entre o olhar
do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto,
quis apagar-me.
As túlipas
plenas de vida comem-me o oxigénio.
Antes de elas
virem todo o ar era calmo,
entrando e
saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as
túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora
embate nelas e redemoinha como um rio
embate e
redemoinha num engenho imerso e vermelho de
[ferrugem.
Chamam a
minha atenção, que era feliz
quando se
entretinha e descansava despreocupadamente.
Também as
paredes parecem animar-se.
As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
[perigosos;
abrem-se como
a boca de um felino africano,
e é ao meu
coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de
florescências vermelhas pelo puro amor que
[me tem.
A água que
saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de um
país tão longínquo como a saúde.
sylvia plath
8/23/13
8/22/13
COMO SE ME TIVESSE DESPISTADO
justamente antes de passar aquela ponte
que serve de cenário para o Grito de Munch,
alastro o meu brasão
para dentro deste compêndio
de reconciliação e imperiais.
Esperava que me acontecesse algo
para poder contar-te logo no caminho de regresso.
Mas não se escreve para abreviar a sede de um céu
no espelho brusco de um charco.
Leio-te e fico doente, outra vez.
É impossível ler Onetti ou ler-te a ti sem ficar
doente.
E, no entanto, é uma questão de saúde,
de respiração vital.
Não sei como funciona tudo isso,
mas olha o que me fazes com as tuas palavras.
Vou para onde me levas. Disparo quando ordenas.
Paro para tomar um café
mas é uma cerveja que peço.
Juro que não foi por ter sede que regressei à rua.
Acontece-me isto com Onetti, digo-te,
ponho-me a falar de literatura,
quero ser o papagaio de Flaubert,
a anaconda de Saint-Exupéry,
ou, ao menos, o cordeiro de Jan Van Eyck.
Mas de cordeiros estão os céus e os supermercados
cheios.
Invento, por isso, um território comercial um pouco
mais original,
actualizo os equipamentos,
gravo o texto de atendimento ao público.
Preparo-me para ser um autómato,
esta máquina de vender cigarros na pastelaria da tua
esquina.
Nem acredito que tenhas passado por aqui,
sua vadia,
e não tenhas metido nenhuma moeda
na minha boca.
Golgona Anghel
8/20/13
Que o lugar
dos solitários
Seja um
lugar de ondulação perpétua.
Quer seja em
pleno mar
Na negra e
verde nora
Ou nas
praias.
Que nunca
cesse
O movimento,
ou o ruído do movimento,
O renovar do
ruído
E múltiplos
prolongamentos;
E,
sobretudo, do movimento das ideias
E da sua
incansável iteração.
No lugar dos
solitários,
Que há-de
ser um lugar de ondulação perpétua.
wallace stevens
8/18/13
8/16/13
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