8/26/13

8/24/13

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
Mário Cesariny

waiting for bob

"Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free, silhouetted by the sea, circled by the circus sands, with all memory and fate driven deep beneath the waves. Let me forget about today until tomorrow" – Bob Dylan
Deixei a vida correr, um velho cargueiro com trinta anos
agarrando-se obstinadamente ao meu nome e endereço.
Limparam-me de todas as minhas associações afectivas.
Aterrada e nua sobre a maca acolchoada de plástico
                                                                 [verde
vi o meu serviço de chá, as minhas cómodas de roupa
                                            [branca, os meus livros
afundarem-se até os perder de vista, e a água cobriu-me
                                                                   [a cabeça.
Sou uma freira agora, nunca fui tão pura.
Não queria flores, apenas queria
estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
                                                                   [toda vazia.
Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da
                                                       [libertação...
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
                                                                  [bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram; imagino-os
introduzindo-as na boca como se fossem hóstias.
Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um
                                                         [bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do
                                                             [meu corpo.
Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim como a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai
                                                   [lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel
                                                            [recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.
Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de
                                                                    [ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.
Também as paredes parecem animar-se.
 As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
                                                             [perigosos;
abrem-se como a boca de um felino africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que
                                                                      [me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de um país tão longínquo como a saúde.


sylvia plath

8/23/13


8/22/13

happy birthday Mister Staley


O dedo trémulo de uma mulher
Corre a lista das baixas
Na noite do primeiro nevão.

A casa é fria e a lista é longa.

Todos os nossos nomes estão incluídos.

Charles Simic

COMO SE ME TIVESSE DESPISTADO
justamente antes de passar aquela ponte
que serve de cenário para o Grito de Munch,
alastro o meu brasão
para dentro deste compêndio
de reconciliação e imperiais.
Esperava que me acontecesse algo
para poder contar-te logo no caminho de regresso.
Mas não se escreve para abreviar a sede de um céu
no espelho brusco de um charco.

Leio-te e fico doente, outra vez.
É impossível ler Onetti ou ler-te a ti sem ficar doente.
E, no entanto, é uma questão de saúde,
de respiração vital.
Não sei como funciona tudo isso,
mas olha o que me fazes com as tuas palavras.
Vou para onde me levas. Disparo quando ordenas.
Paro para tomar um café
mas é uma cerveja que peço.
Juro que não foi por ter sede que regressei à rua.

Acontece-me isto com Onetti, digo-te,
ponho-me a falar de literatura,
quero ser o papagaio de Flaubert,
a anaconda de Saint-Exupéry,
ou, ao menos, o cordeiro de Jan Van Eyck.
Mas de cordeiros estão os céus e os supermercados cheios.
Invento, por isso, um território comercial um pouco mais original,
actualizo os equipamentos,
gravo o texto de atendimento ao público.
Preparo-me para ser um autómato,
esta máquina de vender cigarros na pastelaria da tua esquina.
Nem acredito que tenhas passado por aqui,
sua vadia,
e não tenhas metido nenhuma moeda
na minha boca.


Golgona Anghel

the days we were kings


exercicios para o esquecimento.


8/20/13

(...)Nas minhas artérias e nas minhas veias
Circula também o teu sangue,
Líquido vermelho e viscoso que nutre
Esse extraordinário órgão
Segregante de espantosas e eufóricas auroras,
Tão vital para mim quanto
Os demais órgãos do corpo humano.
Falo obviamente do amor,
(...)
Que o lugar dos solitários
Seja um lugar de ondulação perpétua.
Quer seja em pleno mar
Na negra e verde nora
Ou nas praias.
Que nunca cesse
O movimento, ou o ruído do movimento,
O renovar do ruído
E múltiplos prolongamentos;
E, sobretudo, do movimento das ideias
E da sua incansável iteração.
No lugar dos solitários,
Que há-de ser um lugar de ondulação perpétua.
wallace stevens

8/18/13

Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar."
antónio ramos rosa

nao sei pergunta à alice


8/16/13

o rei está morto