Os ossos dos pássaros mortos como relíquias de santos: usá-los-ia a
todos se com isso achasse encontrar boa sorte. E se me perguntassem que
ossos seriam aqueles que levaria ao peito, diria que são dos santos mais
poluentes desta terra onde já não moram só gaivotas.
Mas não lhes conheço milagres: notícias de pássaros que curem vagabundos
de cegueira, diabetes ou simples bebedeira. O seu propósito, destituído
e substituído pelo quedar do olhar sobre o alcatrão; toda a mortalidade
ali, e ainda assim a cegueira sem cura, que por não serem bichos
religiosos não sabem abençoar os olhos aos que passam; nem ouvir deus
recitando horários e mandamentos às rotinas. Acho que todos devíamos
levar salmos nos bolsos, coisas de fácil digestão nos intervalos entre
os subterrâneos.
Só à face das pedras os pombos revelam o seu lado mais secreto, por lhes
conhecerem a natureza perversa com que provocam acidentes aos que as
atravessam no inverno.
Desconfio dos pássaros por só os encontrar mortos. Tão pobremente mortos
que nem sepultura, só os veios estreitos entre as pedras de granito até
que se somem debaixo das solas dos sapatos ou na terra que dá às pedras
a ilusão da unidade. Nisso lembram-me pessoas.
Divido-as por ordem poética: se uma elegia é uma gaivota à sombra,
imaginando ser um abutre em áfrica, um soneto é um canário enclausurado
numa gaiola demasiadamente espaçosa para a fome do gato, e uma
redondilha é um pardal de pata partida encontrando conforto nas mãos de
uma criança que, sem querer, o asfixia enquanto corre para o ir mostrar à
sua mãe.
Os pássaros, como a poesia e como as pessoas, só servem para mostrar que
a morte habita cada rua. E eu usaria um colar de ossos de finas asas,
onde se gravassem os poemas de que mais gosto, se achasse que isso
serviria para mudar a minha sorte de velório.
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