8/24/13

Deixei a vida correr, um velho cargueiro com trinta anos
agarrando-se obstinadamente ao meu nome e endereço.
Limparam-me de todas as minhas associações afectivas.
Aterrada e nua sobre a maca acolchoada de plástico
                                                                 [verde
vi o meu serviço de chá, as minhas cómodas de roupa
                                            [branca, os meus livros
afundarem-se até os perder de vista, e a água cobriu-me
                                                                   [a cabeça.
Sou uma freira agora, nunca fui tão pura.
Não queria flores, apenas queria
estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
                                                                   [toda vazia.
Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da
                                                       [libertação...
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
                                                                  [bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram; imagino-os
introduzindo-as na boca como se fossem hóstias.
Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um
                                                         [bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do
                                                             [meu corpo.
Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim como a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai
                                                   [lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel
                                                            [recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.
Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de
                                                                    [ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.
Também as paredes parecem animar-se.
 As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
                                                             [perigosos;
abrem-se como a boca de um felino africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que
                                                                      [me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de um país tão longínquo como a saúde.


sylvia plath

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