10/15/12

Catarse.

maria inacia 1919-2012...

Tens noventa anos. És velha, dolorida.
Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito.

Não sabes ler, tens as mãos grossas e deformadas,
os pés encortiçados.
Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha,
albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias.
De todo o pão que amassaste se faria um banquete Universal.
Criaste pessoas e gado, meteste os bácaros na tua própria cama
quando o frio ameaçava gelá-los.
Contaste-me histórias de aparições e lobisomens,
velhas questões de família, um crime de morte.

Trave da tua casa, lume da tua lareira -
 Sete vezes engravidaste
 Sete sete vezes deste à luz.

Estou diante de ti, e não entendo.
Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo.
Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo.

Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era
quando nasceste:
uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que
não faz parte da tua herança:
quinhentas Palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta,
uma casa de telha-vã e chão de barro.

Aperto a tua mão calosa,
passo a minha mão pela tua face enrijada
e pelos teus cabelos brancos,
partidos pelo peso dos carregos
e continuo a não entender.

Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente.
Por que foi então que te roubaram o mundo?

Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como,
o porquê e o quando se soubesse escolher
das minhas inumeráveis palavras
as que tu pudesses compreender.
Já não vale a pena.

O mundo continuará sem ti - e sem mim...
Não teremos dito um ao outro
o que mais importava.

Não teremos realmente?
Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas,
o mundo que te era devido.

Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior.

Mas porquê avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta,
aberta para a noite estrelada e imensa,
para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás,
para o silêncio dos campos e das árvores assombradas,
e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos
e o fogo da tua adolescência nunca perdida:

"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!".

É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.
José Saramago

3 comments:

  1. Excelente poema... faz-nos sentir saudades dos que perdemos mas abre-nos os olhos para a beleza da vida.

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