11/4/11

percebo a diferença na devastação: a temporalidade de cores inusadas e o corpo a semear a luz que realça uma única presença. acordo de noite e estou só. tenho uma linguagem que fabrica partidas. não vejo para além dos meus braços o vazio a crescer na doçura hídrica do teu nome. tenho toda a cidade levantada nas costas e a minha cabeça não se move. não a toco.



a tristeza desce ao nervo : é o nervo. horas medidas na distância da raiz à terra. começo por lembrar o sol aflito na boca : um dia engoli um sol inteiro que brilha no meu estômago infértil. não durmo. busco a escuridão por dentro dos pulsos numa vaga ideia de abandonar os sentidos. não a toco.



tudo ainda desperta do gesto. a memória e uma mão. enchendo o ar na língua do eterno inacabar da carne. e ter-te aqui. na palma da minha mão estalando os ossos e rebentando as artérias para que sinta. e a raiz consome a distância à terra pelo fogo do meu sangue cadente. ardo. fluida. no vermelho líquido e toco a cabeça : é uma frase a respirar : uma boca sem idade : um crime permanente.



se a noite mudar de caminho toda a luz se dissolve. é a mancha indelével do incêndio. a chama esquecida na mão que nunca soube fechar. o coração que bate na ponta de um dedo contra o sono entoado. e o que fazer?



quero abrir o sopro dessa noite. escurecer o fundo da palavra que nasce. comê-la do lado esquerdo do silêncio: cegarei o amor. já não posso espalhar-te entre a paisagem nem desmultiplicar-te. a matéria ascende à garganta da tua ausência e o pulmão transborda de sal. ardo. rubra. na estação inclinada dos teus lábios há [: sempre] um lugar por encontrar.



assino o meu desejo com a carne : o teu nome



espero morrer. envolta nos ruídos pulmonares do teu fruto. nos espasmos que tua doçura segreda. espero a morte atafulhada no mênstruo que me alaga.

: a devastação. escrita. arrancada por dentro das chamas atravessadas pela cor das minhas pálpebras cegas. um nada. acendendo o ar diante o abismo. o voo final. absoluto. acelerando a palavra que desaparece de tanto queimada e os dentes a permanecerem. rasgando a terra até à grafia das ancas que exultam o teu nome



esta perfeição das coisas terrenas que elevas em ti atingindo violentamente a beleza [: irrecuperável] de um outro sentido. qualquer. esta perfeição.

onde faltas. para que nunca se complete o ventre : os lábios : a idade



: toda a vida que nunca saberei







[: estou tão cansada de estar viva]

1 comment:

  1. "Every night and every morn
    some to Misery are born.
    Every Morn and every Night
    Some are born to Sweet Delight, some are born to sweet delight
    Some are born to Endless Night."

    William Blake "Auguries of Innocence"

    B.

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