2/17/11

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora 
que o tempo se desossa, 
que as pedras 
que piso se me enterram na memória e os caminhos 
se me aguçam na alma como lâminas, o pão 
molhado nas feridas, 
o pão 
ele próprio já também uma ferida, agora 

que o tempo, que já tanto 
compararam a um rio, mais 
não é do que uma leve exsudação nos muros, 
nas mãos, agora 

que o céu se encrespa e que pedaços 
de mundo arremessados 
com toda a força aos olhos revolteiam 
na treva antes de se extinguirem, 

mais magro do que a neve 
caminho, a alma aberta como uma ferida, 
ao longo da memória, onde se fundem 
o tímpano e a pupila. 
Luís Miguel Nava

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