2/14/11

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo

sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia


depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um


parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais


diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-


bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava


impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o


que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e


urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às


nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então


os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha


intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora


era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos


eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era


uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas


abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
 
herberto helder

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